Marie Rucki, dia 1

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Minha intenção não é fazer uma cobertura diária dos ensinamentos de Mme. Rucki, transmitidos nas palestras que acontecem até sexta no Iguatemi -até porque eu não devo ir todos os dias-, mas ontem fui, vi e gostei.

Com o tema da Nova Geração, a mestra (que representa a típica senhora parisiense: chique naturalmente, culta e doce até a página dois) basicamente tratou de fazer uma comparação da filosofia de vida e de trabalho dos grandes nomes da moda, que estão aí há décadas, e a novíssima leva de jovens profissionais. Novos talentos que, em alguns casos, já têm suas próprias grifes e outros que, por ora, ainda são meros empregados das grandes maisons. A grande diferença entre as duas gerações de estilistas é essencialmente o que os move, a faísca que impulsiona o trabalho de cada um, e a maneira com que eles olham para o métier. Por meio de exemplos muito bem escolhidos, Mme. Rucki ilustrou perfeitamente seu raciocínio e ainda nos fez conhecer gente nova muito talentosa (vale ressaltar que todos os nomes citados por ela são de pessoas em quem ela acredita e de quem admira o trabalho, além de serem formados pelo Studio Berçot, dã).

Diferenciar a nova geração da mais antiga é relativamente simples: os profissionais de agora são mais bem preparados, estudados, raciocinam de forma mais cartesiana e não são unicamente movidos pela emoção. John Galliano e McQueen, por exemplo, são estilistas de emoção, que aprenderam a ler as necessidades mercadológicas de suas próprias marcas e das para quais trabalham meio que na raça, já que só foram preparados para criar. Mme. Rucki elogiou bastante o Olivier Theyskens (adoro!) como um belo exemplo de jovem criador cheio de entusiasmo, capaz de entender perfeitamente o mercado, absorver a história da marca que o emprega e ao mesmo tempo imprimir sua própria identidade nas roupas que faz para a Nina Ricci (e, anteriormente, na Rochas).

O primeiro case de jovem típico representante da nova geração a quem fomos apresentados é Yasu Michino, “garoto” de 25 anos, responsável pelo desenvolvivento de boa parte dos acessórios da Givenchy. Mme. Rucki disse que entrevistou o menino e ficou muito impressionada com sua estratégia de carreira, muito metódica e madura, longe do estereótipo de jovem intempestuoso e porra louca de outras gerações. Seu pragmatismo é tanto que, depois de tentar ganhar espaço na maison através de suas bolsas (desenhadas em croquis precisos que mais parecem saídos de uma aula de geometria), ele não se importaria em mudar de área, carregando consigo tudo o que aprendeu na moda.

Jean-Philippe Gawronski fez estudos de direito em Paris, mas decidiu desenhar sapatos, masculinos e femininos, que hoje são fabricados em couro natural na França e tingidos com materiais não-poluentes, parte da filosofia ecologicamente correta de seu trabalho. Ele é sócio da Imitiation and Disguise e colaborador deste blog aqui, o Bem-casadas, da Constance Borges, que é brasileira e já trabalhou na Givenchy.

Teve também o exemplo da Talc, grife que faz roupas infantis bem básicas, que poderiam ser encontradas no Monoprix, mas fez material de divulgação fofo e conceitual com os petits e arrumou O ponto pra sua loja, no Marais. Isso tudo, somado ao fato de ser bem-relacionada dentro da elite parisiense e pronto: virou hype entre madames que querem o básico com um touch a mais para seus filhotes. Teve ainda o exemplo da COS (de Collection of Style, braço da H&M), que desfila em Londres e faz uma moda urbana e minimalista para ambos os sexos e todas as idades, a preço acessível. Aliás, os três exemplos acima são de grifes que aliam qualidade, design e preço, algo bem importante nos dias de hoje e também para Mme Rucki. Não me admira que ela goste tanto da Marisa…

Post longo, né? Mas, calma, que vem a melhor parte: exemplos de moda masculina! Marie Rucki citou o norte-americano Adam Kimmel, que desfila em NY e faz roupa para poucos (segundo ele próprio). Queridinho do meio artsy da Big Apple e de estilistas como Martine Sitbon, Adam se inspira nos artistas dos anos 60 e 70 (Pollock e Warhol são algumas das referências) para criar uma moda meio intelectual, meio snobbish, feita com os melhores materiais do planeta. É tudo pretensiosamente cool, como a roupa do pintor de telas que finge que não se preocupa com o que veste, sabe? Enfim, sangue jovem, de sucesso.

Antes de fechar com Lacroix e seu enorme talento para ser mais do que estilista de moda (comparação com a facilidade da nova geração em multiplicar as possibilidades de sucesso) e mostrar que ele soube conduzir muito bem sua carreira ao desenhar de assentos para o TGV a uniformes de aeromoças da Air France, Mme. Rucki guardou um capítulo para Hedi Slimane, dizendo que ele é o futuro, um exemplo de talento com identidade. Assinatura que ele carregou para a fotografia desde que saiu da Dior e que continua presente em seu trabalho. As fotos de Slimane têm sempre algo de trash, de anônimo, de frio, num universo muito próximo da música, no qual ele sempre conviveu. Reflexo óbvio nas roupas que criava para a Dior que, apesar de serem voltadas para um público essencialmente jovem, foram resultado da visão do estilista que talvez tenha entendido melhor a evolução de uma geração. Eu, como sou fã, pulei na cadeira nessa hora. Bem legal.

Amanhã volto lá, no dia 3, e conto pra vocês o que achei.

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4 Respostas to “Marie Rucki, dia 1”

  1. muito boa descrição, sylvain. adorei ler aqui.

  2. CAMISETARIA ELEGANTE, ESTAMPAS SUPIMPAS, PREÇOS POPULARES & LUXO

  3. O Jean-Phi virou case da Mme. Rucki?! Que orgulho!!! I&D é mesmo um luxo!!!

  4. […] vez, fazendo palestras a semana toda, e quem foi já contou como foi: o Prataporter contou, o C’est Hypercool contou e no UolModa também tem. A gente vai hoje à noite ver a senhorinha fashion falar da […]

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